A análise e comparação das obras Medeia e Gota D’Água por Emerson Albernás
Como sabem, entre tantos desafios que tenho para 2011 é concluir meu curso de Artes Cênicas onde estarei me especializando em Dublagem e atuando a partir de 2012 também como Ator/Dublador.
E já para esse início de ano deverei apresentar para a matéria História do Teatro uma análise e comparação de duas obras que marcaram época na dramaturgia mundial. Trata-se das Peças; MADÉIA, tragédia grega escrita por Eurípedes e GOTA D'ÁGUA uma adaptação brasileira criada por Chico Buarque e Paulo Pontes.
Acho que para começar, um Importante e grande ponto a se destacar é que essas duas obras, independente das realidades de época e momento de suas criações, acabam mantendo toda “construção” e paralelo entre as duas histórias. E entendo que isso ocorreu propositalmente pois em nenhum momento Chico Buarque e Paulo Pontes tiveram a intenção de dar outro sentido ao enredo que não o próprio original de Medeia.
Para entender melhor é importante que se conheça, mesmo que bem resumidamente as duas histórias e seus pontos de evolução:
-MEDÉIA: E a continuidade do Mito Jasão e seus Argonautas, dez anos após o casamento do herói com Medeia, uma vez que Jasão em meio a desafios mortais em sua trajetória sempre contou com Medeia para vencê-los onde sempre ela se dispôs prometendo ajudá-lo com a promessa de que ele se casaria com ela e a levaria no caminho de volta a Iolcos. Umas das partes que podemos perceber esse tal “acordo” é quando ela oferece ao argonauta um ungüento que deveria usar no corpo e no seu escudo para se livrar do fogo e do ferro durante um dia, para enfrentar touros indomados, e assim lavrar e semear um campo . Contudo Medeia o adverte que dessa semeadura seria dos dentes de dragão e que futuramente nasceria uma seara de soldados para lutar contra Jasão tentando contra sua vida com o objetivo de matá-lo. Daí em diante ele escapa de armadilhas forjadas, sempre contando com a ajuda de Medeia que no decorrer da trama mostra também seu lado negro e cruel no desenrolar da história entre intrigas, desentendimentos e até mortes, onde foi capaz de matar o próprio irmão. Também a tragédia marca a obra num revés da troca de Medeia por Glauce, princesa e filha de Creonte, rei de Corinto, onde a feiticeira seria banida do reino e no intuito de se vingar, mata Glauce e Creonte no dia do casamento para destruir os pontos fracos de seu ex-marido: seus próprios filhos.
-GOTA D’ÁGUA: Nessa, a personagem principal não é chamada de Medeia, mas de Joana. Já as personagens: Jasão, Creonte, Egeu permanecem com seus nomes da Obra original. Nesse caso Jasão é compositor musical na categoria Sambas, Creonte um empresário envolvido com alguns mistérios que nos leva a desconfiar de seu caráter e Egeu, um técnico em eletrônica, nessa peça sua função principal era o conserto de rádios, onde mantinha um estreito relacionamento com Jasão e Joana não só pela amizade mas também por ser padrinho de casamento do casal. Um dos motores que impulsionam a obra é o fato de Joana ter 34 anos e Jasão 20, ela ter se emprenhado para assumir o Jovem e fazê-lo se tornar um homem completo e de prestígio após terminar um relacionamento de 10 anos com o gigolô Cacetão.
As duas peças foram compostas entre tramas bem parecidas. Porém uma diferença que podemos destacar é o fato de, em Medeia, ela fazer um sacrifício para ficar com o homem que ama, em Gota D’Água foi através do divórcio. Depois de um tempo Jasão troca Joana por Ana, filha de Creonte, e há a comparação do lado macabro de Medeia, onde na criação grega tratava-se de uma mulher que usava de seus dons de magia e feitiçaria, já na obra brasileira, Joana descarrega sua ira em trabalhos realizados em terreiros de umbanda, onde tenta oferecer presentes consagrados e envenenados que sabiamente foram rejeitados por Creonte evitando sua morte e de Ana. Assim Joana não viu outra forma senão cometer o assassinato de seus próprios filhos e cometer suicídio.
O que se percebe também é que em Medeia fica clara a presença de um cenário montado em meio a realeza monárquica, de um Herói vencido, e da explicita apresentação do Coro em sua principal função que era, além de contar propriamente a História, era também usado para revelar alguma mensagem que levava os expectadores a absorverem o enredo da apresentação de forma moralista, ou seja, a chamada “Lição de Moral”. E isso acontecia propositalmente uma vez que as produções eram oferecidas e até mesmo financiadas pelo Governo daquela época, e assim tinha todo o controle da condução das idéias e ideais do Povo podendo exercer um melhor e mais efetivo “controle” sobre eles.
Já se analisarmos outro ponto importante dessa obra, podemos afirmar que Medeia é uma tradicional obra Apolínea. O que se pode levar em consideração é o fato de encontrarmos em sua composição a grande preocupação de se manter a mensagem de denúncia dos fatos e momentos vividos naquela época de extrema manipulação governamental.
Por sua Vez Chico Buarque e Paulo Pontes utilizaram dessa mesma ferramenta e aproveitaram o momento para denunciar o Governo ditatorial e capitalista que vivia a década de 70 em meio a muitas crises. A História passa em uma comunidade pobre e lutadora frente a vários problemas sociais presentes em meio a derrota dos menos favorecidos na sociedade.
Assim, o momento não poderia ser melhor para os artistas da época em mostrar aquela realidade, meio que “abrindo os olhos” do povo levando as obras a todos através de uma linguagem mais popular, e porque não dizer até mais vulgar, para ser compreendido melhor.
Para encerrar, a impressão que fica é a do poder da mulher, seu expressivo grau de comprometimento por determinada causa e o explícito relato da realidade de duas sociedades tão distantes e diferentes, e que mesmo tempo revelam tanta coisa em comum.

