
Foi com grande pesar que recebi a notícia que os lendários Estúdios da Álamo, em São Paulo, encerrarão suas atividades após quase 40 anos de serviços prestados à dublagem no Brasil. A bomba foi divulgada no Twitter por alguns dubladores e muitos fãs perplexos com a notícia.
Segundo informou o dublador Hermes Baroli nesta quarta-feira, 12 de maio de 2011, também através de seu Twitter, a empresa fechará suas portas até o final deste mês. Por hora, não há nenhuma informação sobre o real motivo do fechamento do estúdio, mas um pronunciamento deve ser divulgado em breve, pelo menos é o que todos esperamos.
Nos últimos três anos, também fecharam a VTI e a Hebert Richers, importantes casas de dublagem do Rio de Janeiro.
Responsável pela versão brasileira de grandes clássicos da história da TV brasileira – em especial Jaspion, Changeman, Jiraiya, e mais uma tonelada de tokusatsus que foram exibidos no Brasil – a casa também foi responsável por quase toda programação do canal Animax e clássicos como Dragon Ball Z e Os Cavaleiros do Zodíaco (redublagem).
A Álamo tem sua história profundamente vinculada à história do cinema brasileiro. Michael Stoll, seu fundador, veio da Inglaterra para o Brasil com a equipe de técnicos estrangeiros contratados por Alberto Cavalcanti para trabalhar na Cia. Vera Cruz, em 1950: Chick Fowle (fotógrafo), Oswald Hoffenrichter (montador e editor), Bob Henke (iluminador), John Waterhouse (diretor e editor), Jerry Fletcher (caracterizador), Rex Endsleigh (montador), Tom Payne (diretor e assistente).
Michael, que trabalhara no Ealing Studios, de Londres, veio como técnico de som dessa equipe. Anos depois, quando o projeto da Vera Cruz foi encerrado, Michael fundou uma empresa de importação e distribuição de filmes, a Brascontinental, que atendia basicamente às demandas da televisão, recém-criada no Brasil.
Os filmes importados não se compatibilizavam inteiramente com as necessidades do mercado. A legendagem, única forma de torná-los inteligíveis para a grande maioria da população brasileira, ainda excluía grande parte do público.
A dublagem era o caminho para que todos tivessem acesso à produção internacional. Técnica desenvolvida nos EUA desde a década de 30, tornara-se extremamente necessária à medida que a produção cinematográfica se expandia em larga escala mundial através da televisão nas décadas de 60 e 70.
Em 1972, Michael fundou a Álamo. A vinheta de locução que encerrava a apresentação dos filmes - "Versão Brasileira Álamo" - tornou-se um dos ícones da mídia, sendo conhecido e respeitado em todo o Brasil.
Alguns títulos de séries são lembrados até hoje: "Muppets Show", "Agente 86", "Anos Incríveis", "Super Vicky" e "O Mundo de Beakman". Entre os mais recentes sucessos, estão "Lost", "Dr. House", "Pysch", "Ugly Betty", "Hanna Montana" e "Lipstick Jungle".
Dos filmes já dublados pela Álamo, não se pode deixar de citar marcos como "O Poderoso Chefão", "Grease", "Top Gun" e "Jurassic Park" e os mais recentes "High School Musical", "High School Musical 2", "Hairspray", "A Bússola de Ouro" e "Mimzy - A Chave do Universo".
A Álamo também vem se destacando pelo sucesso nas dublagens de Animes como "Os Cavaleiros do Zodíaco", "Dragon Ball Z", "Digimon Frontier", "Fullmetal Alchimist" e "Néon Gênesis Evangelion". Isso, sem esquecer os desenhos animados como "Bob Esponja", "Os Rugrats", "O Mundo de Bobby", e "Homem Aranha".
A experiência com técnicas de sonorização de filmes fez com que a Álamo, mais que dubladora, se tornasse um Laboratório de Som, vindo a fazer o acabamento sonoro de grande parte da produção cinematográfica nacional, incluindo produções como "Ilha Rá Tim Bum - O Martelo de Vulcano", "Pelé Eterno", "Cidade dos Homens", "Antonia", "O Magnata", além dos já citados "O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias", "Tropa de Elite", "Meu Nome Não é Johnny" e "Chega de Saudade". E tudo isso parece que vai ficar só na saudade mesmo.
A acirrada concorrência entre os estúdios pode ser um dos motivos dessa situação, já que o fator preço acaba ponderando na decisão das distribuidoras, muitas vezes deixando de lado o quesito principal para o sucesso de uma autêntica versão brasileira: a qualidade.

